«Imaginar novos futuros» é o que propõe o livro From Southern Theory to Decolonizing Sociolinguistics – Voices, Questions and Alternatives, editado por Ana Deumert e Sinfree Makoni. O livro possui quinze capítulos que englobam contribuições de diversos estudiosos da linguagem preocupados em fazer uma sociolinguística decolonizada a partir da teoria do sul. A crítica à perpetuação das ideologias nacionalistas e colonialistas é o fio condutor das discussões em todos os capítulos, que trazem como temáticas-base de questionamento: a noção moderna de língua, a emergência da posicionalidade dos pesquisadores nos textos, as epistemologias e as metodologias de pesquisa, a lógica colonial de produção do conhecimento e da escrita acadêmica etc. Ao ponderar sobre tais considerações e explorar possíveis abordagens para soluções, é possível que possamos iniciar um processo de decolonização de nossas próprias mentalidades (cf. Lane, capítulo 3: 39-40) enquanto pesquisadores da linguagem.
O capítulo 1, que é o introdutório e de autoria dos organizadores, além da apresentação tradicional dos capítulos, traz uma reflexão inicial sobre pensar novos futuros (2) e decolonizar a escrita acadêmica (p. 6), assim como epistemologias e ontologias, a partir de ferramentas proporcionadas pela teoria do sul. Deumert e Makoni conduzem uma reflexão sobre as posicionalidades, acompanhada de um encorajamento para que os pesquisadores indiquem explicitamente, em seus textos, seu lócus de enunciação. A respeito da decolonização da lógica de produção de conhecimento, Hamid (2022) propõe que, para decolonizar epistemologias e o conhecimento acadêmico, majoritariamente produzido em inglês, é preciso antes que o próprio inglês seja decolonizado (Hamid, 2022: 409). Uma perspectiva semelhante àquela proposta por Hamid (2022) é delineada na discussão apresentada por Pennycook, conforme descrito no capítulo 5.
No capítulo 2, Jaspal Naveel Singh trata da construção de identidade nacional em contextos pós-coloniais, especialmente na Índia, considerando aspectos culturais e linguísticos. O hindi foi proposto como língua unificadora numa tentativa de redefinir a identidade nacional do país. A ideia foi a de criar uma versão pura do hindi, não deixando espaço para práticas translíngues. O capítulo apresenta e discute as duas faces dessa «purificação», porque de um lado é vista como uma maneira de colonização, já que apela para um purismo idealizado, e de outro, há quem a interprete como uma maneira de decolonização, uma vez que, com o hindi puro, a Índia poderia eliminar o passado e mentalidades coloniais e construir uma nação imune a influências externas (20). Singh defende que propor tal política de purificação do hindi não é algo decolonial, exatamente porque mobiliza práticas «[…] excludentes, nacionalistas, racistas, divisivas e se assemelham mais a teorias da conspiração do que a teorias do sul.»12 (21). Uma solução decolonial, segundo o autor, seria adotar a perspectiva da translinguagem (García & Li 2014).
No capítulo 3, Pia Lane analisa as experiências de silêncio e ausência linguística em sua comunidade natal na Noruega, utilizando dados empíricos e refletindo sobre sua própria trajetória acadêmica nos campos da sociolinguística e do multilinguismo. Sob uma perspectiva da teoria do sul, a autora destaca a importância da reivindicação linguística como parte do processo de decolonização, a fim de compreender os mecanismos de colonização e silenciamento (40). Lane mostra como o Sul está presente no Norte quando este precisa lidar com políticas opressivas e de desvalorização da práticas linguístico-culturais locais, que restringiram recursos linguísticos minoritarizados em prol de uma nação norueguesa monolíngue. Uma solução decolonial proposta pela autora seria adotar a reivindicação linguística para retomar a autopercepção identitária e desvincular as mentes do processo de norueguização (51).
O capítulo 4 é uma conversa entre os editores do livro e Ellen Cushman. Ao ser questionada sobre a(s) teoria(s) do sul e decolonialidade, a autora afirma que adota a perspectiva da reciprocidade com as comunidades com quem trabalha. Afirma que, embora valorize as teorias críticas nas discussões cotidianas, acredita que elas precisam ser complementadas por ações práticas na construção de «[…] alternativas aos sistemas de poder»3 (57). No capítulo 5, Pennycook discute aprendizagem de línguas adicionais sob a perspectiva da sociolinguística decolonial e propõe uma visão mais social e interativa para compreender o desenvolvimento linguístico, de maneira a privilegiar a natureza social da aprendizagem. O autor tece críticas à visão monolíngue do inglês no mundo e defende, citando Kumaravadivelu (2016), que o referido recurso linguístico seja desvinculado das múltiplas maneiras de colonialidade (74), a começar pela sua inserção como uma língua também do Sul Global (73), uma vez que não possui proprietário e, portanto, não pertence ao Norte Global. Pennycook encerra o capítulo propondo duas diretrizes para uma sociolinguística decolonial da aprendizagem de recursos linguísticos: que se tenha uma política de conhecimento preocupada em questionar as ideologias raciolinguísticas (83); e que se busque conhecimento sobre diferentes enquadramentos de conhecimento (85), considerando diferentes epistemologias e ontologias.
No capítulo 6, Amfo e Agyepong apresentam resultados da aplicabilidade da Teoria dos Domínios (Fishman 1972) no contexto de atividades religiosas cristãs na África moderna e concluem que essa teoria não se aplica a todos os contextos (91). Sugerem uma análise multidominial impulsionada pelas necessidades do grupo pesquisado e afirmam que a visão eurocêntrica, no domínio religioso, não é exclusiva. No capítulo 7, Severo e Makoni propõem uma problematização sobre as políticas linguísticas destinadas aos povos indígenas, alinhada a um posicionamento crítico dos pesquisadores em relação à produção de conhecimento sobre/para esses povos. Eles defendem uma perspectiva de linguagem e uma metodologia que sejam contextualizadas e que levem em consideração as experiências locais e os conhecimentos indígenas. Sugerem, ainda, que categorias de enquadramento colonial, concebidas para impor padrões, sejam revisadas, e que «[…] os povos indígenas deveriam ter a capacidade de escolher criar e conduzir suas próprias políticas linguísticas.»4 (115), o que estaria mais alinhado à teoria do sul, desafiando as narrativas eurocêntricas e coloniais.
Carneiro e Silva, no capítulo seguinte, propõem a antropofagia como ferramenta conceitual para refletir a respeito da decolonização da sociolinguística. Para isso, apresentam alguns sociolinguistas brasileiros e discutem como eles produzem conhecimento crítico no Brasil. Carneiro e Silva mobilizam o que eles chamam de sobrevivência da antropofagia «[…] não apenas como um modo de ser, mas também como um modo semiótico de interpretar o mundo e produzir conhecimento na sociolinguística brasileira […]»5 (129). Os autores compreendem a ética da sobrevivência como algo que relaciona a antropofagia ao Antropoceno, momento geológico que destaca a ação humana no planeta (132). Segundo os autores, a conexão proposta por eles, ao relacionar a antropofagia (relação indígena de alteridade) com os debates característicos do Antropoceno (tais como as maneiras como as pessoas respondem à desigualdade econômica, à vulnerabilidade social, à violência etc.) (141), através do tropo da sobrevivência, encoraja projetos esperançosos que podem promover mudanças na vida de pessoas minoritarizadas.
No capítulo 9, Oduor, ao examinar as políticas linguísticas de dois países da África Oriental, propõe a adoção de uma perspectiva multilíngue que considere os diversos multiliguismos que podem ser úteis a cada região (147), a partir de uma escuta das necessidades das pessoas (151). Sugere três fatores críticos para uma política linguística no Sul Global: «multilinguismo (multilinguismos fixos e flexíveis); linguagem e desenvolvimento nacional; e estratégias de implementação»6 (148). Oduor conclui o capítulo apresentando um manifesto contendo ideias potenciais para políticas linguísticas decoloniais, visando uma abordagem mais alinhada aos interesses e necessidades das pessoas (158-164).
Destaco uma das propostas do manifesto da autora que trata da apreciação tanto do valor econômico de ser um sujeito multilíngue quanto do valor específico de determinados recursos linguísticos (160). Essa é uma proposta que, embora legítima em sua motivação, pode inadvertidamente perpetuar a lógica colonial se implementada de maneira a reforçar o status quo de atribuição de valor a recursos linguísticos, em que alguns deles terão mais ou menos valor a depender da lógica de mercado do sistema capitalista, sem contar com a «hierarquização social dos falantes»7 (Duchêne 2020: 93).
Na mesma linha da reflexão incitada por Duchêne (2020), Lynn Mario Menezes de Souza, no capítulo 10, termina a sua entrevista com os editores fazendo o seguinte questionamento: «[…] o multilinguismo é a expressão de um desejo pelo novo e desconhecido ou um instrumento de controle?»8 (197). Essa foi a resposta para o comentário de Deumert sobre os essencialismos serem às vezes necessários, do ponto de vista político. Faz parte da ótica decolonial reconhecer as incompletudes e «renunciar ao desejo por hegemonia»9 (197), segundo Lynn Mario. Ao longo da entrevista, ele enfatiza que sua vivência com a reflexão decolonial é intrinsicamente biográfica e destaca que, para ele, a concepção de língua como um código fixo, abstrato e nomeado sempre lhe pareceu incoerente, especialmente enquanto indivíduo dotado de um repertório linguístico multifacetado (172), embora ele também não tivesse a percepção dessa multiplicidade enquanto falante. Como pesquisador da área da linguagem, compreende que a experiência linguística de cada falante está relacionada ao histórico e lócus de enunciação ─ posicionalidade ─ de cada um. Embora adote a perspectiva decolonial, Lynn Mario observa que as teorias decoloniais têm se tornado mercadoria acadêmica para alguns (181) que estão mais preocupados com a popularidade por elas ensejadas, do que com o caráter político e transformador por elas proporcionados (176, 181).
Mpendukana e Stroud, no capítulo 11, propõem a discussão da «colonialidade da linguagem» (199) pela problematização de práticas linguísticas que racializam e desumanizam corpos. Examinando os escritos de Frantz Fanon, os autores utilizam a noção de cidadania linguística para propor uma sociolinguística decolonial baseada em atos de amor. Em «Black Skin», uma das obras consultadas, Fanon afirma que a linguagem do colonizador desumaniza as pessoas negras, posicionando-as «em uma zona de não-ser»10 (202). A esse respeito, a importante discussão proposta por Pannell (2023) utiliza a noção de «carne negra»11 como categoria analítica (Pannell 2023: 5), a qual expõe a condição desumana que a colonialidade impôs nos corpos negros. Mpendukana e Stroud encerram o capítulo afirmando que a relação da noção de cidadania linguística e o que apregoa Fanon, nas obras examinadas, proporciona um cenário propício à mudança social revolucionária (215) no sentido de «construir uma teoria de subjetificação»12 (215) que seja amorosa e não-desumanizadora.
No capítulo 12, Oostendorp apresenta o humor como instrumento metodológico para os estudos sociolinguísticos decoloniais (220-221). Seu ponto de referência para a discussão que sugere é um estudo que diminui, do ponto de vista cognitivo, mulheres «de cor»13. Oostendorp, que se autodeclara também uma mulher «de cor», reflete como a sociolinguística colonial reproduz preconceitos. Para mostrar como explora o humor em análises sociolinguísticas, a autora cita a coluna que a inspirou: «7th avenue makes me ashamed», que parodiava uma novela sul-africana e refletia questões relacionadas à identidade «de cor». A autora instiga uma reflexão sobre a prática da escrita acadêmica e a legitimidade do pesquisador na análise sociolinguística ao abster-se de examinar o excerto da coluna mencionada, presente nas páginas 230 e 231. Tal atitude levanta importantes questionamentos acerca dos pesquisadores que presumem compreender completamente seus campos de pesquisa após uma geração breve e superficial de dados (231), de acordo com a autora. Ela sugere que, possivelmente, esses pesquisadores alcançariam um entendimento mais profundo dos grupos que estudam se conseguissem apreciar o humor característico desses mesmos grupos. Essa não-análise do excerto, segundo a autora, além de outras reflexões, suscita na comunidade acadêmica uma sensação semelhante àquela experimentada pela comunidade não acadêmica ao se deparar com uma «escrita teórica densa»14 (p. 233).
Deumert e Makoni, no capítulo 13, refletem sobre a aplicabilidade da «[…] teoria do sul e decolonização para uma prática pedagógica reflexiva […]»15 (239). Uma lista com algumas sugestões é apresentada. Uma delas seria ensinar teorias que inspiram e não as que reproduzem a lógica colonial. Contudo, a reflexão da posicionalidade enquanto professores-pesquisadores deve ser contínua. Por exemplo, «[…] podemos sair da ordem colonial-capitalista-patriarcal, ou […] estamos […] inevitavelmente enredados nela[?]»16 (241, grifo meu). Os autores afirmam que é preciso insistir em um trabalho nas universidades que seja subversivo, ainda que as estruturas do ordenamento colonial-capitalista-patriarcal sejam difíceis de subverter. Para pensar essa pedagogia reflexiva, Deumert e Makoni citam Paulo Freire e bell hooks e fecham o capítulo com um conceito de María Lugones: «testemunho fiel»17 (250), que sugere presenciar novas maneiras de conceber e estar no mundo, para além das convencionais-coloniais. Os capítulos 14 e 15 são comentários de Thurlow e Bagga-Gupta, respectivamente. O primeiro autor tece seus comentários de maneira não convencional: por citações diretas de trechos dos capítulos do livro (pp. 256-261); e a segunda autora enumera em lista os dilemas que ficaram perceptíveis após a leitura das contribuições dos capítulos anteriores (270-271).
Assim, pelo exposto, a leitura de From Southern Theory to Decolonizing Sociolinguistics – Voices, Questions and Alternatives é altamente recomendada para pesquisadores que buscam uma abordagem decolonial em suas práticas de pesquisa em sociolinguística. Ao longo dos 15 capítulos, são apresentadas diferentes proposições para a decolonização do conhecimento e de sua transmissão. A desestabilização da noção moderna de língua pode representar um ponto de partida crucial que suscitará reflexões sobre os outros temas fundamentais abordados nos capítulos. Repensar a concepção de linguagem em que se acredita e que é ensinada exige uma postura crítica por parte dos pesquisadores, bem como uma revisão onto-epistemológica e metodológica da lógica colonial subjacente à produção de conhecimento. Pesquisadores interessados em evitar a reprodução do conhecimento colonial podem se beneficiar da leitura desse livro.
Fontes citadas
Duchêne, A. (2020). Multilingualism: An insufficient answer to sociolinguistic inequalities. International Journal of the Sociology of Language, 2020(263), 91-97.
Gal, S. y J. T. Irvine (2019). Signs of difference: Language and ideology in social life. Cambridge University Press.
García, O. y W. Li (2014). Translanguaging: Language, Bilingualism and Education. Basingstoke: Palgrave Macmillan.
Hamid, M. O. (2022). English as a southern language. Language in Society, 52(3), 409-432.
Pannell, J. L. (2023). Plays with words: Fungible(ly) fugitive Black sound in ethnographies of communication. Language in Society, 1-22.
1 As citações diretas apresentadas nesta resenha foram traduzidas livremente pela autora.
2 […] practices and discourses are fundamentally exclusionary, nationalistic, racist, divisive and resemble conspiracy theories more than they resemble southern theories.
3 […] create and practice alternatives to those systems of power.
4 […] Indigenous peoples should be able to choose to create and conduct their own language policies.
5 […] not only as a mode of being but also as a semiotic mode of interpreting the world and producing knowledge, in Brazilian sociolinguistics, […]
6 […] multilingualism (fixed and flexible multilingualisms); language and national development; and implementation strategies.
7 […] creating a social hierarchy of speakers […].
8 […] is multilingualism the expression of a desire for the new and unknown or an instrument of control?
9 […] stepping down from your desire for hegemony […].
10 […] language (of the colonizer) is vividly and viscerally described as positioning Black people in a zone of non-being.
11 Black flesh.
12 […] build a theory of subjectification […].
13 Coloured.
14 […] theory-dense writing […].
15 What do southern theory and decolonization mean for a reflexive pedagogical practice?
16 […] we can move outside of the colonial-capitalist-patriarchal order, or whether we are — qua academic employment — inevitably entangled in it.
17 Faithful witnessing.
