Thábata Christina Gomes de Lima
Universidade Federal Fluminense
Resumo
A língua espanhola esteve presente nos Estados Unidos da América antes mesmo que este fosse reconhecido como Nação. Devido a diversos fatores, os hispano-falantes estiveram e estão em contato constante com os norte-americanos. E este contato resultou (e resulta) em diversas configurações peculiares naquela região. Uma destas configurações culminou com o surgimento de um fenômeno linguístico e cultural muito discutido e polemizado: o spanglish, o qual não se registra apenas nas interações locais e cotidianas da comunidade que dele se utiliza, mas vem envolvendo diversos meios de comunicação e expressões culturais, como o cinema, a música e a literatura. Isso tudo vem a afirmar que o spanglish a cada dia vem convertendo-se em uma marca de identidade cultural da comunidade hispânica nos EUA e, com isso, seu uso tem sido cada vez mais difundido entre os hispano-falantes, de um modo geral.
Palavras-chave: língua espanhola; língua inglesa; spanglish; identidade cultural; contato linguístico.
1. O espanhol nos EUA
De acordo com Criado (2003), a língua espanhola tem sido uma presença constante nos Estados Unidos, e isto está relacionado, principalmente, a fatores históricos. A «chegada» do espanhol em territórios norte-americanos ocorreu de diversas maneiras, sendo que uma das mais significativas deu-se através do Tratado de Guadalupe-Hidalgo (1848), em que terras mexicanas foram «vendidas» ao governo anglo-saxônico.
Este «acordo» trouxe diversos problemas à população “hispanohablante”, que de um momento para outro viu-se estrangeira em sua própria pátria, deixando de ser considerada mexicana para ser vista como «americana». Como afirma Garrido (2008:19), não foram eles que cruzaram a fronteira, “sino que fue la frontera la que se movió y los incluyó en otro país”.
Assim, esta parcela da população foi obrigada a apreender o inglês como língua oficial e proibida de comunicar-se em sua língua materna: o espanhol. E, além do idioma, a população foi submetida a uma realidade totalmente diferente, o que resultou em um enorme choque cultural.
Betti (2009:13) afirma que “como resultado de todo ello, las siguientes generaciones de méxico-americanos (chicanos) empezaron a utilizar palabras del inglés, pero con la pronunciación o fonética española”. Esta “mistura” de ambas as línguas tornou-se conhecida como spanglish, um fenômeno linguístico e cultural, que vem avançando nos Estados Unidos e trazendo consigo diversas polêmicas.
2. O spanglish nos EUA
De acordo com Garrido (2008:27), “al hablar del español en los Estados Unidos es frecuente mencionar el ‘espanglish’ o ‘spanglish’”. Defini-lo, entretanto, não é uma tarefa fácil. Há quem o considere como uma simples adaptação e evolução das línguas em contato. Outros o veem como uma tentativa falha de os “chicanos” utilizarem o inglês como segunda língua.
A verdade é que ainda há uma grande discussão sobre o que vem a ser este fenômeno: nova língua, gíria, pidgin, língua crioula, dialeto, interlíngua e outros mais. Devido à diversidade de situações que o envolvem e às variadas perspectivas de análise, fica praticamente impossível atribuir-lhe uma única definição.
Assim como são diversas as denominações dadas a este fenômeno linguístico, são diversas também as situações e as regiões em que se fala spanglish. Ele pode ocorrer desde situações fronteiriças, como México–EUA, como em cidades repletas de imigrantes, como Los Angeles, ou por anglofalantes que acham atrativa esta ideia de comunicar-se por meio da mistura de códigos.
Segundo Guerra Avalos (2001):
Generalmente, hay dos enfoques del spanglish con incontables variaciones. Puede consistir en la combinación de palabras correctas ya sea en español o en inglés: dos idiomas se unen and they both win something […]. El segundo enfoque ha sido el creado por los inmigrantes para sobrevivir y consiste en que las palabras en inglés se “tomen prestadas” para cambiarlas y pronunciarlas en una forma de español: to hang out a hanguear. De esta manera se hacen palabras bajo las reglas de ortografía del español, pero no precisamente de manera correcta (GUERRA AVALOS, 2001:4).
Podemos perceber, então, que ele pode ocorrer, principalmente, de duas formas: uma, através da alternância e/ou mistura de códigos, em que são utilizadas palavras “gramaticalmente” aceitas, em línguas distintas; e, por meio de “empréstimos linguísticos”, em que palavras “inglesas” são “espanholizadas” gráfica e foneticamente. Este segundo enfoque é atribuído aos imigrantes hispanos e tem recebido conotação depreciativa.
3. A importância do spanglish para a comunidade “chicana”
Muito se tem falado sobre as características e sobre as consequências que este fenômeno pode trazer às línguas envolvidas. A sua importância para a comunidade chicana, entretanto, tem sido pouco estudada. São poucos os pesquisadores que têm buscado compreender o valor que o spanglish possui para os hispano-falantes, de um modo geral. Entre eles podemos citar: Ilán Stavans, Carmen Silva-Corvalán, Antonio Torres Torres e Teresa Fernández-Ulloa.
Estes autores compreendem que este fenômeno linguístico não representa apenas um modo de falar “diferente”, mas que expressa a diversidade linguística e cultural em que estão inseridos os hispano-falantes nos Estados Unidos da América.
Para isso, deve-se levar em consideração os falantes que, mesmo “dominando” os dois idiomas, optam por utilizar a alternância e/ou a mistura de códigos, característicos deste fenômeno.
Diversos estudiosos afirmam que os falantes de spanglish são aqueles que não dominam o inglês ou o espanhol adequadamente e que, portanto, buscariam nesta “mistura” uma maneira “eficiente” para comunicar-se. Logo, dentro desta perspectiva, o spanglish é visto como uma “contaminação”, um prejuízo linguístico imenso. Mas, como as pesquisas atuais nos revelam, e como argumenta Valle (2011),
el caso es que muchos individuos plurilingües utilizan el intercambio de códigos […] como un recurso comunicativo, como un mecanismo de interacción, y no como solución circunstancial a una supuesta deficiencia lingüística que de hecho no padecen (VALLE,
2011:576).
Desta maneira, o spanglish vem a ser utilizado, em grande parte, por pessoas que poderiam escolher um ou outro idioma para comunicar-se, mas que preferem utilizar a “mistura” de ambos, por motivos diversos, entre eles, estilo, intenção comunicativa, e outros mais.
Assim, este fenômeno não pode ser considerado como uma marca de “deficiência” linguística, pois vem sendo utilizado por pessoas de diversos setores da sociedade, falantes de inglês e/ou espanhol. E, para que a comunicação seja realmente efetivada, torna-se necessário um conhecimento das duas línguas em uso.
Além disso, o spanglish não “afeta” apenas a fala da comunidade que dele se utiliza, mas vem envolvendo diversos meios de comunicação. Isso tudo leva-nos a afirmar que ele está representando marcas de uma identidade mestiça, ou seja, de uma comunidade que não se reconhece totalmente hispana, mas que jamais será verdadeiramente norte-americana.
Levando-se em consideração que
[…] a identidade cultural abrange tudo o que se relaciona à pessoa, a seu sentido de pertença, a seu sistema de crenças, a seus sentimentos de valor pessoal. É a soma total dos modos de vida forjados por um grupo de seres humanos e transmitidos de geração em geração. A identidade cultural sou eu, e tenho o direito de conhecê-la e entendê-la. E, ao dar-me conta de quem sou, é provável que minha conduta manifeste traços positivos de identidade (ROVIRA, 2008:3).
Podemos acreditar que haja um desejo, por parte de alguns hispanofalantes, de manifestar sua realidade mista, ou seja, manifestar a sua identidade híbrida.
Calvet (2012) relata que:
Com efeito, existe todo um conjunto de atitudes, de sentimentos dos falantes para com suas línguas, para com as variedades de línguas e para com aqueles que as utilizam, que torna superficial a análise da língua como um simples instrumento (CALVET, 2012:57).
Desta forma, as línguas não podem ser vistas apenas como simples instrumentos de comunicação, pois trazem consigo parte das identidades de seus falantes. Através das variedades e/ou línguas utilizadas, os falantes expressam seus sentimentos e atitudes. Por isso, quando um hispano-falante decide comunicar-se em spanglish, podendo utilizar somente uma das línguas envolvidas (seja este considerado uma língua ou uma variedade), está assumindo uma posição ideológica. Pode ser que, ao fazer isso, esteja reconhecendo que faz parte de uma cultura híbrida, e que utilize o spanglish como manifestação dessa identidade mestiça.
Fernández-Ulloa (2004) reforça que
para sus hablantes se ha convertido en algo más que una forma de hablar ya que representa de alguna manera esa doble identidad y cultura que les rodea, reforzando su autonomía como individuos de una sociedad multiétnica (FERNÁNDEZ-ULLOA, 2004:72).
É visto, portanto, como uma marca de identidade mista, em que as “duas” culturas são imbricadas e envolvidas indistintamente.
Betti (2009:109) reconhece que este termo traz uma ideia do que vem a ser o comportamento linguístico que caracteriza muitas comunidades hispanas residentes nos EUA. E acrescenta que
El spanglish llega a ser, entonces, no solamente un medio comunicacional eficaz en determinados contextos, sino un signo de hibridación, de una nueva identidad in-between, mestiza, además de un modo de vida bien definido, que facilita la comprensión entre hispanos que no hablan inglés y norteamericanos que no hablan español (BETTI, 2009:113).
Logo, este fenômeno é tido como uma marca de identidade cultural híbrida. E, mais que isso: como um modo de vida característico de muitos grupos chicanos.
Assim:
El spanglish revela un tercer espacio, una forma de vivir, una estrategia viva, expresiva, capaz de conmover o indignar, de vehicular sentimientos y rebeliones, y sobre todo refleja un estilo de vida, los valores, las actitudes, la visión del mundo de muchos hispanos que así se expresan y viven (BETTI, 2009:116).
Revela um terceiro espaço, uma forma de vida, cujos valores e atitudes
mestiços são entrelaçados.
4. Conclusão
Podemos dizer, com base nos estudos realizados, que apesar de a língua espanhola não apresentar o mesmo status que a língua inglesa nos EUA, tem sido utilizada frequentemente pelos hispano-falantes de primeiras e segundas gerações. O spanglish, por sua vez, vem crescendo em número de falantes e, com isso, novas políticas linguísticas estão surgindo, tanto em relação ao ensino do inglês e do espanhol, quanto da própria difusão do mesmo em escolas e universidades norteamericanas.
Como vemos, são muitas as teorizações envolvendo este fenômeno linguístico e, por trás dele, há diversas políticas linguísticas envolvendo o espanhol nos Estados Unidos. De acordo com Garrido (2000),
se proponen tres objetivos de política lingüística para el español en los Estados Unidos: que hablen español además de inglés quienes sean de origen hispanohablante, que lo estadounidenses hablen español además de inglés, y que el español sea la lengua de América en los Estados Unidos (GARRIDO, 2000:50).
Percebemos que há uma grande discussão a respeito deste assunto, já que “hablar una lengua es sobre todo escribirla y leerla. La política lingüística del español tanto en su difusión interna como en la externa tiene que ser sobre todo difusión de la cultura de España y de América” (GARRIDO, 2000:58).
Podemos concluir, então, que o spanglish, enquanto fator de identidade cultural, além de difundir a língua espanhola nos EUA, ajuda a propagar um pouco mais da realidade dos “hispanos” que ali se encontram. Por isso vem gerando diversas polêmicas em relação à valoração política a seu respeito, já que, ao estimulá-lo, estimula-se à “transculturação”. Este fenômeno vem transmitindo marcas de uma “nova” cultura: daqueles que, em meio ao contato com diferentes comunidades de fala, acabam por suscitar uma diferente maneira de falar, de expressar-se, de viver.
Libro de actas. 2 Congreso Internacional de Profesores de Lenguas Oficiales del MERCOSUR (CIPLOM)

Que louco, vey. Será q aqui existe o Portunhol?
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