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A POLÍTICA DO INCÔMODO

JOSÉ DEL VALLE

Traduzido por Marcos Bagno

A linguagem inclusiva e o “sistema”

A defesa pública da linguagem inclusiva é uma dentre as muitas estratégias do movimento feminista na luta contra formas de organização social que privilegiam o homem. O feminismo é um movimento internamente poliédrico que, além disso, progride em relação dinâmica – cúmplice e conflituosa – com outras causas nas quais grupos sociais marginalizados – pela supremacia branca, pela heteronormatividade ou pelo classismo, por exemplo – pretendem converter-se em atores políticos. Todas essas lutas, por sua vez, se inscrevem em processos históricos associadas à repartição de recursos e à organização do trabalho. Dada sua relevância em múltiplas dimensões da mudança social, é imperativo não limitar a discussão sobre a linguagem inclusiva a considerações superficiais: as inovações respeitam ou não a matriz gramatical do idioma? Esta ou aquela forma triunfará ou não? É necessário manter aceso o fogo de uma reflexão glotopolítica para evitar a frivolização de fenômenos linguísticos que são, de fato, elementos integrantes dos procesos de emancipação.

A sociolinguística – uma das disciplinas dedicadas ao estudo sistemático da comunicação humana – afirma que a linguagem é uma prática social. As relações sociais são concebidas como um tecido em constante transformação, armado com diferentes modelos e gradações de conflito e cooperação, e presume-se que os seres humanos atuam sempre em relação com outros buscando criar harmonias e dissonâncias, sincronizações e contrapontos que nos posicionem diante do resto. É certo que, ao fazer sociolinguística, se está estudando, ao fim e ao cabo, como e por quê certos movimentos do corpo se convertem em linguagem: pensemos na ação coordenada do diafragma, das cordas vocais, da língua e dos lábios para produzir a oralidade; ou na coreografia gestual que configura as línguas de sinais; ou a dança dos dedos, que resulta na escrita, em contato com o lápis e o papel, com o teclado ou, mais frequentemente, com a tela de vidro do tablet. Mas a sociolinguística torna evidente que esses movimentos do corpo – geradores de substância fônica, gestual ou gráfica – adquirem forma gramatical – isto é, se convertem em linguagem – somente diante da resposta de outros corpos, ou seja, em virtude de sua condição social, como elemento constitutivo dos processos que articulam as relações humanas.

Assim concebida, a gramática não é produto de uma razão autônoma; nenhuma forma gramatical é como é porque a gramática mesma assim exija; nenhum registro de regularidades verbais pode justificar sua autoridade ou validade com base em regras pretensamente alheias à práxis social, às condições materiais concretas nas quais alguém fala, reproduzindo ou transgredindo os padrões herdados. É a vida social que constrói as regularidades da linguagem, que as elevou à condição de norma quando, por meio de diferentes mecanismos – livros de gramática, dicionários, manuais de uso, cânones literários –, gerou modelos linguísticos impregnados de moralidade, associados a identidades sociais desejáveis ou indesejáveis (“quem fala assim é uma pessoa culta”, “quem falada assado é ignorante”, “quem pronuncia assim é bicha” etc.).

Ora, nós não somos prisioneiros do hábito. Na medida em que a norma se constitui socialmente – lembremos: entre dinâmicas tanto conflituosas quanto cooperativas –, ela é permanentemente suscetível de ser descumprida, reinterpretada e alterada. E é nessa batalha entre normas – potencial mas fundamental – que reside a condição política da linguagem. Falar, sinalizar ou escrever é necessariamente posicionar-se em – e em relação com – um universo social, baralhar identidades, cumprir ou descumprir padrões de ação social em virtude dos quais se legitima ou se deslegitima nosso pertencimento a um grupo. Por isso, de uma perspectiva glotopolítica, o descumprimento ou a alteração da norma não se explica como ignorância gramatical, mas como visibilização de uma posição social e como potencial construção e manifestação de sujeitos políticos. Esses momentos de transgressão linguística são, definitivamente, aqueles que revelam a condição política – socialmente situada e ligada a interesses concretos – da norma e desmascaram a ideologia política que, sob o véu de naturalidade com que cobre a norma que ela vigia, se beneficia de sua reprodução acrítica.

Vejamos por exemplo a regra que, em espanhol, constrói compostos do tipo portavoz (“porta-voz”), recogepelotas (“gandula”, literalmente “recolhe bolas”) ou chupatintas (“barnabé”, literalmente “chupa tintas”). Poderiam parecer resultantes de um processo que une um verbo (portar, recoger, chupar) a um substantivo (voz, pelotas, tintas). E poderiam parecer também não ter um gênero gramatical fechado, podendo assim adquirir o gênero atribuído pelo modificar que os preceda: el ou la portavoz, el ou la recogepelotas, el ou la chupatintas. É imprescindível entender, porém, que essa regra surge historicamente e se reproduz num complexo cenário de interações verbais e de produção de modelos de uso apropriado da linguagem. A regra é também uma norma, e não é produto de uma racionalidade gramatical que exista fora desse complexo cenário social, mas sim de uma normatividade gramatical criada precisamente para esse cenário.

Dizer la portavoza e el portavoz é, de fato, alterar um hábito linguístico, é descumprir uma regra ou norma gramatical. No entanto, atenção: o argumento que pretende “proteger” a gramática violentada afirmando sua autonomia com relação à vontade humana – argumento brandido a todo momento pela Real Academia Española – é falso. Com base nele, aqueles que vigiam a norma e as regras que a legitimam dirão: “Não sou eu que rejeito esse neologismo, é o sistema gramatical”. E contudo não há nada na “natureza” de portavoz que impeça a inovação portavoza: o “sistema gramatical” não tem capacidade de decisão. Que uma pessoa desconecte portavoz do padrão morfológico que caracteriza recogepelotas e chupatintas e decline a palavra em função do gênero do referente não viola nenhum sistema que tenha surgido de modo natural – no entanto, rompe um hábito linguístico, desafia uma norma e, o que é crucial, perturba a ordem social ligada à norma incomodada. O que conspira contra tal inovação não é “a gramática”, mas dois fatos que são fundamentalmente políticos: primeiro, o hábito – inscrito no corpo de escutar e dizer la portavoz – e, segundo, o desejo político de desacreditar a ação social da qual faz parte o neologismo portavoza. É o primeiro que leva muitas pessoas – inclusive algumas que se declaram abertamente feministas – a repelir as inovações propostas. E é o segundo que motiva viscerais reações públicas de quem resiste a aceitar as bases do feminismo e vê nesses gestos linguísticos um campo de batalha favorável.

A linguagem inclusiva e o incômodo

A enunciação da palavra portavoza há de ser entendida como parte de um processo que se desenvolve em distintos lugares e em distintas temporalidades. É um fato facilmente comprovável que as alterações de um hábito têm um efeito corporal (que pode ser a maior secreção de adrenalina, a aceleração do ritmo cardíaco, a intensificação da respiração, a tontura). E, como observei acima, as regras ou normas da gramática estão inscritas no corpo e por isso sua alteração nos “soa mal”. À medida que as práticas verbais se acomodarem a nossa expectativas, nosso corpo as receberá com naturalidade. E, de igual modo, na medida em que incomodarem, reagiremos frente à surpresa causada pelo novo evento marcando como antinatural a forma que a gerou. É nessa corporalidade que está a base dos processos ideológicos de naturalização de uma norma que na realidade é social em sua origem – e na lógica argumentativa da Real Academia é o sistema gramatical autônomo que ocupa o lugar de fato natural perturbardo pela inovação agramatical contranatural.

Este incômodo que nos predispõe contra a mudança passa a primeiro plano quando o ato de fala se produz num contexto em que as práticas verbais estão altamente codificadas e até mesmo ritualizadas em grau máximo. Mais ainda quando se apresenta explicitamente como elemento constitutivo de uma cena glotopolítica: por exemplo, portavoza usada numa coletiva de imprensa por uma figura que representa um partido político e que inscreve seu ato de fala no processo em curso de reivindicação feminista.
As pessoas que escutam podem sentir incômodo, já não apenas pela não satisfação de uma expectativa – ou, dito de outro modo, pelo descumprimento de uma regra –, mas pela transformação qualitativa da cena de fala: diante da aparição de uma norma alternativa, diante de sua vinculação com uma política e uma ética, se produz a falsa resposta: “dizer portavoza é politizar a linguagem, mas dizer la portavoz é respeitar uma gramática alheia às veleidades políticas de quem a usa”. Falsa, sem dúvida. Porém, facilmente aceitável para quem não deseje suportar não só o incômodo de uma palavra nova, mas o incômodo de ter que decidir: ao existir uma norma alternativa, o simples ato de falar deixa de ser tão simples, pois agora se sabe que quem fala escolhe e, ao escolher, se posiciona política e eticamente.

Não somente o léxico e a morfologia têm se visto tocadas pelo recente avanço do feminismo. Também a discursividade ou estilo conversacional – igualmente normatizada, ainda que por meio de mecanismos codificadores menos explicitamente linguísticos – tem visto surgir alternativas que perturbam certos “costumes”. Cuidado com o modo como um professor se dirige a uma aluna; cuidado com o modo como um trabalhador se dirige a uma colega; cuidado com as baixarias que os homens acreditam ter o direito de dirigir às mulheres na rua. Estas, entre outras, são regulações do uso da linguagem que, embora relevantes para todo mundo, são particularmente desconfortáveis para os homens. Há razões – para além do hábito corporal – para o incômodo? Será possível cometer excessos e abusos no exercício desta nova vigilância?
É claro que sim. Menos mal, porém, que passemos a perder o privilégio da comodidade (tomara, para começar, que a reconheçamos como privilégio). Porque, sendo homens, desconhecemos o incômodo de caminhar pela rua tendo que escutar canalhices; desconhecemos o incômodo de um superior nos prometer o topo da carreira se tolerarmos que suas mãos percorram nosso joelho (ou mais); desconhecemos o incômodo de sermos excluídos ou interrompidos, de nos explicarem o que sabemos, de se apropriarem de nossos argumentos quando agradam ou de os ridicularizarem quando não. É óbvio que nós homens podemos ter experimentado pontualmente tais incômodos, mas não os teremos experimentado por sermos homens. E aí está a diferença entre uma experiência incômoda e uma experiência incômoda que é produto de uma desigualdade estrutural como a que discrimina as mulheres.

Retiraram-nos, a homens e a mulheres, de nossa zona de conforto. E é bom que seja assim porque está em curso uma transformação que visa privar-nos de nossos privilégios enquanto homens e que convida, a homens e a mulheres, a considerar sua cumplicidade na reprodução da desigualdade. E não se faz uma mudança de tal porte cantando “Blowing in the wind” em alegre círculo fraternal – não só, é claro. Também não se consegue com uma simples cirurgia gramatical e uma autoridade normativa que, por um lado, seja capaz de impor portavoza, todes e companheirxs mas, por outro, ignore o verdadeiro âmbito de relevância dessas inovações. Avança-se rumo à mudança entendendo a linguagem como prática social sempre disputada e inscrita, por isso, na vida política. Não vai resultar daí que todo mundo acabe dizendo e escrevendo portavoza, todes e companheirxs e o patriarcado siga (quase) intacto. Será preciso atentar no que se passa com essas inovações. Mas será preciso também participar do devir de palavras chaves como “homem”, “mulher”, “masculinidade”, “afeminado”, “sexo”, “desejo” ou “instinto”. Será preciso perturbar a construção discursiva de estereótipos de gênero e seus efeitos: por exemplo, o encaminhamento profissional diverso de mulheres e homens. Será preciso combater a discrepância salarial. Será preciso… A mudança social será possível se se revolver a linguagem em sua permanente transformação e, ao mesmo tempo, com a mesma consciência política, se se alterarem práticas de exercício do poder e se subverterem os hábitos de intimidação que instalam a desigualdade na vida cotidiana.

José del Valle é docente e pesquisador na área de sociolinguística em The Graduate
Center (CUNY – City University of New York). Entre suas publicações estão La batalla del idioma: la intelectualidad hispánica ante la lengua (Iberoamericana/Vervuert, 2004), La lengua, ¿patria común? Ideas e ideologías del español (Iberoamericana/Vervuert, 2007) e Historia política del español: la creación de una lengua (Aluvión, 2016).

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