Discusión

Debatendo temas polêmicos: uma manera dinâmica de trabalhar a interculturalidade e desenvolver os conhecimentos linguísticos em sala de aula

Marceli Aquino
Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo
Este artigo transcorrerá sobre o tema da interculturalidade em uma sala de aula de português como língua adicional. Para este fim apresentamos as atividades realizadas com uma turma de intercambistas da UFMG (Universidade Federal de minas Gerais) debatendo temas intitulados polêmicos. Por meio das discussões foi possível, além de auxiliar no aprendizado de língua estrangeira de forma dinâmica e eficaz, acessar as diferenças culturais e sociais dos estudantes. Desta forma, este trabalho pretende apresentar uma perspectiva linguístico-cultural para ser desenvolvia em aulas de português como língua adicional, além de estimular reflexões sobre como trabalhar a interculturalidade em sala de aula multicultural.
Palavras-chave: português como língua adicional; interculturalidade; debate de temas polêmicos.

1. Introdução
As diferenças e debates linguístico-culturais são temas de grande interesse tanto para o aluno como para o professor de uma L2. Os estudos na área de ensino e aprendizagem de língua adicional vêm, cada vez mais, dando o espaço merecido para discussões interculturais, tendo em vista que o estudo de uma língua estrangeira não se restringe apenas à investigação dos aspectos lexicais e gramaticais, mas também à integração entre cultura e sociedade, que são habilidades que devem ser treinadas em sala de aula (AQUINO, 2012:91). E para isso oferece ao professor o papel de mediador, ou seja, que este interfira, interaja e provoque reflexões para o desenvolvimento da língua estrangeira estudada em contextos e situações reais estimulantes e dinâmicas.

Quando em uma sala de aula de português como língua adicional, estes debates interculturais tomam uma proporção ainda maior, favorecendo a criação de um ambiente oportuno de interação intercultural. O professor tem em suas mãos alunos de múltiplas nacionalidades, diferentes experiências de vida, sociais, culturais e acadêmicas, que oferecem um solo fértil para explorar e debater temas interessantes que auxiliem o ensino de língua, em um viés puramente linguístico e gramatical, mas também por meio de reflexões interculturais.

Neste artigo apresento a minha experiência como professora de PLE, e também a dos alunos durante as atividades de debate de temas polêmicos realizados na disciplina intitulada “Produção Oral e Escrita” oferecida pelo Programa de Português para Estrangeiros, com parceria do DRI (Diretoria de Relações Internacionais) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2012.

2. Metodologia básica
Para desenvolver este trabalho utilizei como base algumas metodologias, como: fundamentos da sociolinguística (CALDAS, 1988), de forma a auxiliar o aluno no desenvolvimento da competência comunicativa; experiências e narrativas (MICCOLI, 2010), ou seja, ensinar e aprender a língua-cultura brasileira a partir do diálogo de culturas; o conceito de “carga cultural compartilhada” (GALISSON, 1991), que defende a interculturalidade como o objetivo da abordagem comunicativa e sua necessidade para a competência na cultura alvo.

Desta forma, pretendi oferecer um enfoque interculturalista, acompanhando problemas e dificuldades linguísticas, corrigindo os possíveis erros no decorrer das atividades, levando em consideração a opinião e individualidade dos estudantes estrangeiros de língua portuguesa.

3. Primeiras experiências e desenvolvimento da ideia
A turma de Produção Oral e Escrita foi composta por alunos de nível intermediário e avançado de língua portuguesa, sendo entre eles dois alemães, um norte americano e três hispano-falantes (Colômbia, Espanha e México). A disciplina é oferecida a estudantes oriundos de instituições parceiras da UFMG no exterior e voltada aos interessados em aperfeiçoar seus conhecimentos de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Seu intuito foi o desenvolvimento linguístico da língua portuguesa focado em produções escritas de temas diversos, assim como discussões, debates, apresentações de trabalhos. Não obstante, as aulas abordam também temas gramaticais, lexicais, culturais e sociais.

Importante ressaltar que esta disciplina não utiliza nenhum material didático definido, desta forma cabe ao professor a preparação de todo o equipamento e assunto desenvolvidos em sala de aula, assim como a elaboração de avaliação e a entrega de questionários.

As atividades iniciais propostas envolviam assuntos diversos, como as superstições – já que a primeira aula foi dada em uma sexta feira 13 –, literatura e escritores brasileiros, pontos gramaticais selecionados pela professora e a pedido  dos alunos, etc. No entanto, durante as aulas ficou evidente que muitos dos temas propostos acabavam sendo deixados de lado e assuntos como política, diferenças sociais e culturais entre Brasil e seus países natais, pobreza, entre outros, apresentavam maior interesse para os alunos.

Esta mudança espontânea no curso das aulas foi muito intrigante e interessante. Muitas vezes passávamos do horário proposto para as aulas, que já era longo (duas horas), conversando animadamente sobre diferentes tópicos sociais e culturais. Assim, se construiu a ideia da formação de aulas com debates de temas polêmicos que vamos discutir a seguir.

4. Os debates
Os temas dos debates eram propostos com uma semana de antecedência, assim os alunos tinham tempo de pesquisar sobre os assuntos e se prepararem para defender as suas opiniões na língua portuguesa. Desta maneira, os estudantes eram estimulados primeiramente a desenvolver as competências de leitura e escrita (preparando os tópicos argumentativos) na língua estudada e secundariamente a fala, durante os debates em sala de aula.

Os assuntos abordados eram variados e foram escolhidos pelos alunos. Os principais e aqueles que geraram os debates mais dinâmicos e polêmicos foram:

1) legalização do aborto;
2) legalização de drogas, em especial a maconha;
3) Código Penal Brasileiro em comparação com outros países;
4) greves das universidades;
5) pena de morte;
6) prisão perpétua versos prisões psiquiátricas etc.

Os debates foram realizados em conjunto. Em alguns, como a legalização da maconha, montamos grupos contra e a favor. Cada grupo expôs sua argumentação durante cerca de cinco minutos sem interrupção e depois realizaram o debate, sempre muito caloroso.

Como professora, realizei o papel de mediadora, direcionando as discussões, incentivando reflexões, marcando pontos importantes e interessantes, oferecendo espaço para que os alunos mais calados pudessem dar a sua opinião e até evitando possíveis desentendimentos.

Depois de cada aula ou final de um debate conversávamos sobre problemas que surgiram durante a atividade, como equívocos de pronúncia, erros de conjugação gramatical, dúvidas de vocabulário, entre outros. E ao final das atividades realizávamos uma tarefa escrita. Cada aluno poderia escolher um dos temas debatidos e escrever uma resenha contendo os prós e contras (por exemplo, do aborto) e dar a sua opinião sobre o tópico escolhido. Estes textos foram corrigidos pelo professor e analisados separadamente com cada aluno, evidenciando os pontos fortes e aqueles que precisavam de mais atenção nas próximas aulas.

Por meio destes textos fui capaz de avaliar, além do grande impacto que os debates tiveram em cada aluno, os pontos lexicais e gramaticais que poderiam ser abordados em aulas futuras, como o subjuntivo, o plural e as preposições. Um dos alunos inclusive está tentando publicar a resenha que formulou na disciplina em um jornal de Belo Horizonte.

Assim, a atividade que envolve debates e discussões em sala de aula consegue alcançar amplos padrões e significações no ensino de língua portuguesa, reforçando reflexões sobre a língua/linguagem, identidade, cultura, interculturalidade, entre outros aspectos essenciais para um ensino de língua dinâmico e eficaz.

5. Objetivos propostos e alcançados
Segundo Schröder (2008), que retoma as hipóteses básicas de Ungeheuer sobre comunicação em geral, em meios interculturais o falante tem uma dupla tarefa: ele não deve apenas transformar as experiências interiores em ações exteriores, como faria em sua própria cultura, mas também as ações exteriores na coesão da outra cultura, o que torna a comunicação mais complicada e suscetível a mal-entendidos. Para Schröder, o caminho para tratar esses problemas interculturais na comunicação seria “uma conscientização e uma reflexão do sistema cultural do outro, mas também do próprio sistema cultural da orientação” (SCHRÖDER, 2008:47).

Neste sentido, este trabalho desenvolvido na disciplina Português para Estrangeiros: Produção Oral e Escrita teve o intuito de propiciar uma compreensão mútua entre as culturas e mundos dos alunos estrangeiros, como também da cultura e sociedade brasileiras, propondo, desta forma, uma reflexão intercultural e oferecendo a oportunidade e os meios para que os alunos se expressarem, oferecendo suas opiniões e se comunicando de forma efetiva em outra cultura e em outra língua. Desta maneira, discutimos a importância da interculturalidade em sala de aula, partindo do pressuposto que estudar uma LE não consiste apenas em aprender a língua estrangeira, mas desenvolver hábitos de fala (ABREU, 1964).

Os temas polêmicos debatidos –como aborto, eutanásia, pena de morte etc.– favorecem a criatividade linguística, estimulando o aluno a se posicionar em relação a diferentes temas, defendendo suas opiniões, compartilhando elementos culturais e sociais. Logo, as discussões também incentivam o uso da língua em contextos dinâmicos, em situações de uso reais. Para tanto, os alunos devem reconhecer e usar sequências argumentativas.

Logo, pretendemos evidenciar neste trabalho, por meio da discussão dos debates de temas polêmicos, a importância da relação língua-cultura, tentar proporcionar uma abordagem multicultural e ajudar o utilizador do português a construir objetivos e conteúdos de aprendizagem em função de suas necessidades.

6. Discussão e análise
A atividade sobre debate de temas polêmicos apresentou resultados claros com relação ao aprimoramento linguístico (gramática, pronúncia, concordância, etc.), além de significante melhora na relação entre os alunos da turma e um maior incentivo e liberdade na participação de atividades realizadas em sala de aula. Este trabalho apresenta também um questionário respondido pelos alunos que participaram da disciplina, como forma de expressar suas opiniões com relação aos assuntos e temas tratados, as atividades propostas e o desenvolvimento do aprendizado de língua, validando esta proposta de trabalho.

No entanto, neste artigo apresentarei apenas as perguntas presentes nos questionários e uma análise geral das respostas. Vejamos os questionamentos oferecidos aos alunos a seguir:

Qual a importância e por que você escolheu fazer um curso de Português durante a sua estadia no Brasil?
Durante o curso “Produção Oral e Escrita”, qual foi a sua aula preferida e por quê?
Entre as seguintes atividades, qual você acredita ser mais produtiva para o seu aprendizado de língua estrangeira: apresentação de trabalhos e pequenos projetos desenvolvidos fora da sala de aula; discussões e debates em sala, juntamente com os outros alunos; atividades escritas e gramaticais; aulas expositivas do professor. Justifique-se.
Qual tema ou discussão você gostaria de ter abordado durante o curso?
Com relação às discussões e debates em sala de aula, o que é mais interessante: assuntos cotidianos ou temas polêmicos? Justifique-se.
No geral, qual atividade você sugeriria para próximos cursos?
Você acredita que este curso tenha te ajudado a melhorar e desenvolver o seu conhecimento de língua portuguesa e/ou cultura brasileira? Como?

Tabela 1. Questionário.

De forma geral, as respostas obtidas pelos alunos evidenciam primeiramente que eles se inscreveram na disciplina com o intuito de melhorar a escrita e fala do português brasileiro, tanto que gostaram dos temas gramaticas abordados. No entanto, todos preferiam atividades dinâmicas, com relações culturais, como as expressões idiomáticas e os debates. Sobre os debates, 100% dos entrevistados afirmaram que preferem discutir temas polêmicos, mesmo que seus argumentos sejam refutados por outros alunos, de forma que estes temas geravam polêmica e, assim, maior discussão e maior espaço para conversas e, portanto, uso da língua estudada.

7. Conclusão
As aulas de Português para estrangeiros realizadas por meio de debates de temas polêmicos se mostraram extremamente eficazes, tanto para o ensino de língua estrangeira, envolvendo as principais competências linguísticas, como para a interação intercultural entre alunos e professor. As discussões em sala de aula proporcionaram uma queda de barreira envolvendo questões sócio-comunicativas entre os próprios estudantes da disciplina (sujeitos/mundos) e, com relação à língua e cultura em que estavam imersos, favorecendo a criatividade linguística em situações reais e dinâmicas do uso da língua.

Durante os debates foi possível notar que os alunos ficaram mais próximos uns dos outros, compreendendo um pouco mais sobre as diferentes culturas presentes no curso. De fato, os alunos tímidos e com baixa participação em outras aulas também se mostraram interessados nas discussões e, principalmente, revelaram uma considerável melhora nas habilidades de língua portuguesa.

Nesta perspectiva aqui abordada, portanto, assim como Mendes (2011), defendemos como atividade intercultural a forma de tratar a língua/linguagem muito além do que apenas um objeto de ensino, passando a ser a ponte, uma dimensão mediadora entre os sujeitos e os diferentes mundos e culturas. Não obstante, essas interações interculturais surgem por meio das relações de diálogo durante a interação.

Tive com este artigo a intenção de estimular professores de língua portuguesa como língua adicional experimentarem diferentes e dinâmicas maneiras de trabalhar a interculturalidade em sala de aula, ao mesmo tempo em que abordam elementos linguísticos e gramaticais. Atividades como debates de temas polêmicos são estimulantes e apresentam resultados positivos e interessantes reflexões tanto para alunos como para o professor.

 

Libro de actas. 2 Congreso Internacional de Profesores de Lenguas Oficiales del MERCOSUR (CIPLOM)

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