Discusión

Ações para a promoção da língua espanhola em Florianópolis/Brasil no âmbito de instituições federais

Ana Kaciara Wildner
Instituto Federal de Santa Catarina
Fabíola Teixeira Ferreira
CAp/Universidade Federal de Santa Catarina
Leandra Cristina de Oliveira
Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo
O presente artigo apresenta ações desenvolvidas no âmbito de três instituições federais no contexto local de Florianópolis (Santa Catarina, Brasil). As propostas didático-pedagógicas praticadas nos projetos desenvolvidos se assentam em pressupostos do sociointeracionismo da linguagem, perspectiva na qual a comunicação tem lugar de destaque. As questões aventadas neste trabalho colocam em evidência a atuação e a parceria dessas instituições no que concerne à valorização da língua espanhola e ao fomento do ensino-aprendizagem desse idioma no Sul do Brasil.
Palavras-chave: Língua espanhola; ensino; ações institucionais.

1. Introdução
A importância do aprendizado da língua espanhola por parte de falantes brasileiros pode ser percebida em vários aspectos, tanto no âmbito profissional como no pessoal (MORENO FERNÁNDEZ, 2005; SEDYCIAS, 2005; KULIKOWSKI, 2005; WILDNER e OLIVEIRA, 2009, 2011, dentre outros). Quanto ao primeiro, destacamos o surgimento do MERCOSUL (Mercado Comum do Sul), que favoreceu a ampliação das relações políticas, econômicas e sociais entre os países envolvidos e a consequente necessidade de entendimento / comunicação entre falantes hispânicos e brasileiros. Além disso, considerando um contexto mais amplo, o idioma espanhol está entre as primeiras línguas mais difundidas no mundo, sendo cada vez mais utilizado como língua estrangeira. No âmbito pessoal, por seu turno, aprender essa língua favorece o enriquecimento cultural, haja vista que vários países a têm como língua materna, multiplicando-se, dessa forma, as possibilidades de conhecimentos e aprendizagens.

Neste trabalho, nosso interesse recai sobre um micro contexto: o ensinoaprendizagem do espanhol na cidade de Florianópolis/SC, com foco na apresentação de ações e projetos praticados pelas seguintes Instituições Federais: Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Colégio de Aplicação (CAp/UFSC).

A motivação para a proposição dos projetos e ações aqui apresentados se deve principalmente a dois objetivos principais. Com relação ao projeto interinstitucional entre IFSC e UFSC, apresentado na seção 3, o objetivo é aproximar estudantes de cursos de formação profissional voltados para o turismo (IFSC) e do curso de Letras Espanhol (UFSC). Quanto ao segundo projeto, desenvolvido pelo Colégio de Aplicação, sua principal intenção é promover o intercambio de experiências culturais e científicas entre estudantes e professores brasileiros e argentinos, conforme veremos na seção 4. Ambas as ações assentamse em uma perspectiva sociointeracionista da linguagem, sobre a qual trata a seção a seguir.

2. Sociointeracionismo e o ensino de língua estrangeira
Na perspectiva sociointeracionista, a comunicação tem papel central. Como o próprio nome sugere, são palavras-chave no sociointeracionismo o “social” e a “interação”. No contexto de ensino de línguas, por exemplo, é dada a ênfase no significado e não nas formas da língua. Nessa direção, Long (1988; 1991 apud LONG e ROBINSON, 1998) defende que é na interação e na negociação do sentido que os alunos aprendem uma língua estrangeira. Através do retorno das avaliações (feedback) por parte do professor ou de seus colegas sobre seu desempenho na língua meta – retorno que pode ser explícito ou implícito – o aprendiz atrai sua atenção para os desvios em sua fala, podendo (ou não) resultar em aprendizagem. Por outra parte, para esse autor, a forma da língua não deve ser desprezada no processo de ensino-aprendizagem, mas deve estar a serviço, por assim dizer, do significado. Long (1988 apud LONG e ROBINSON, 1998) propõe uma opção alternativa ao ensino com foco somente no significado – no qual a estrutura da língua não é considerada – e ao ensino com foco naS formaS, em que há uma preocupação excessiva com a língua enquanto sistema (gramática); denominado de ensino focado na forma (no singular). Na proposta de Long, aspectos relacionados à estrutura da língua são destacados no insumo (oral ou escrito), mas não são ensinados explicitamente. Ademais, a escolha dos itens a serem destacados deriva do processo de ensino-aprendizagem, isto é, da percepção por parte do professor das deficiências e necessidades dos alunos, de forma que não há como prever inicialmente quais formas serão destacadas.

Por outro lado, acreditamos que não é necessário, e talvez nem positivo, abolir momentos de ensino explícito das aulas de língua estrangeira, conforme a proposta mais estrita do ensino focado na forma, pois há situações em que a aprendizagem pode ser favorecida e acelerada através do ensino explícito (N. ELLIS, 2002 apud R. ELLIS, 2002). É o que evidencia o estudo empreendido por Wildner (2012), cujos resultados apontam que os alunos contemplados na amostra – estudantes da Educação Profissional – consideram que as três estratégias de ensino (com foco no significado, na forma e nas formas) contribuem para o seu processo de aprendizagem do idioma espanhol.

Pautadas no ensino significativo da língua, que compreende a ênfase em sua funcionalidade nos diferentes contextos sociais e situações comunicativas, socializamos projetos em andamento concernentes ao ensino do espanhol como língua estrangeira, tendo em vista uma perspectiva sociointeracionista da linguagem.

3. A língua espanhola no contexto de turismo e hospitalidade: práticas comunicativas
O projeto cujo título inicia a presente seção tem como principal objetivo proporcionar situações comunicativas reais em língua espanhola mesmo estando o estudante em território brasileiro. Em discussões referentes à pedagogia da língua estrangeira, é comum mencionar a relevância de se inserir os estudantes em situações comunicativas reais. Simultaneamente, emergem questionamentos: (i) dada a artificialidade natural do contexto de ensino-aprendizagem, como garantir que a prática comunicativa seja “real”? (ii) Como garantir o “uso real” da língua espanhola estando imerso em um contexto luso falante? Nesse sentido, é importante ressaltar que a defesa pelo uso concreto da língua não desconsidera os limites da sala de aula; ressalta, senão, um ensino pautado numa perspectiva sociointeracional da linguagem.

Sob essa perspectiva, cabe ao professor proporcionar situações que minimizem a artificialidade do processo de ensino-aprendizagem, deslocando o aprendiz para um posicionamento ativo frente ao uso da língua-alvo, frente a seus objetivos em relação a esse novo idioma. O projeto apresentado nesta seção segue esse direcionamento, considerando não apenas a necessidade de inserir os estudantes em práticas comunicativas “reais”, como também os fins específicos da aprendizagem em questão.

O projeto interinstitucional “A língua espanhola no contexto de turismo e hospitalidade: práticas comunicativas” decorre do interesse de professoras de diferentes instituições em aproximar seus estudantes, por meio de situações de prática em língua espanhola. Os aprendizes e professoras envolvidas representam duas instituições de ensino da Rede Federal: Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os grupos apresentam diferentes perfis e interesses: no caso do IFSC, trata-se de alunos egressos do Ensino Médio, estudantes de cursos profissionalizantes, interessados na comunicação em língua espanhola no contexto para o qual se preparam – o setor turístico, a saber. No caso da segunda instituição, os objetivos dos alunos participantes do projeto se distinguem, já que neste caso trata-se da formação de futuros professores e/ou pesquisadores da língua espanhola, também interessados na comunicação, mas, para além disso, comprometidos com um conhecimento aprofundado em relação a aspectos linguísticos de sua futura língua de trabalho.

Um fator que interessa ressaltar é a heterogeneidade dos grupos, havendo tanto estudantes brasileiros, como hispano-falantes; consequentemente, alunos com diferentes níveis de proficiência. Na interação face a face, o que se observa, a partir de atividade já realizada, é a cooperação entre os indivíduos envolvidos na prática comunicativa. Como ilustração, vale a pena discorrer sobre a atividade pioneira do projeto, relacionada ao contexto de restaurante e bar. Em um encontro, os estudantes do Curso Técnico de Hospedagem (IFSC) receberam os futuros profissionais da área de Letras Espanhol (UFSC), no ambiente técnico da primeira instituição – a cozinha e o restaurante. Nessa atividade, ambos os grupos interagiam no preparo de uma receita mexicana – guacamole – e, em ação posterior, no serviço de restaurante. Na primeira atividade, todos atuavam como cozinheiros, manipulando os ingredientes e executando a receita; na segunda, os alunos da hospedagem – como futuros profissionais da área – atuavam como garçons, e os alunos de Letras, como clientes. Em ambas as práticas comunicativas, os estudantes se comunicavam em língua espanhola, praticando, desse modo, vocabulário e estruturas relacionadas às situações comunicativas delineadas.

A experiência brevemente descrita mostra-nos a relevância da sequência do projeto, tendo em vista a superação dos limites da sala de aula, na qual, não raras às vezes, a prática comunicativa se limita aos papéis professor/aluno, em que este responde aos questionamentos do primeiro. Além de inserir estudantes de espanhol com diferentes interesses frente à língua-alvo, em práticas comunicativas próximas à realidade, outros objetivos vêm sendo alcançados com essa proposta didática interinstitucional, tais como: (i) a inserção de estudantes do Curso de Letras Espanhol, modalidade presencial, em atividades de comunicação num contexto específico: turismo e hospitalidade; (ii) a apresentação a esse público de um contexto de ensino pouco problematizado no âmbito acadêmico: a Educação Profissional; e (iii) a prática comunicativa de estudantes da Educação Profissional relacionadas a seu futuro campo de trabalho.

4. Projeto Córdoba: ultrapassando fronteiras
O segundo projeto, desenvolvido há 21 anos pelo Colégio de Aplicação da UFSC (CAp/UFSC) em parceria com a Escuela Superior de Comercio Manuel Belgrano (MB/UNC) de Córdoba na Argentina, tem como principal meta a integração latino-americana e o estreitamento das relações culturais entre esses países, sobretudo, Brasil e Argentina. Nesse sentido, o “Projeto Córdoba”, como se denomina, consiste em um projeto de intercâmbio científico-cultural entre estudantes e professores, que objetiva a troca de experiências, o viver entre os povos de forma integrada, solidária e complementar, respeitando suas individualidades e convivendo com suas (des)semelhanças.

O Projeto surge a partir do Acordo de Cooperação Acadêmico e Cultural, firmado em 1992 entre Brasil e Argentina e as Instituições de Educação Básica, Colégio de Aplicação e a Escuela Superior de Comercio Manuel Belgrano através de suas respectivas universidades, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Esse acordo foi motivado pelo entendimento de que a questão da integração passa pelo reconhecimento do pluralismo cultural, econômico e social dos países da América Latina e pela análise dos elementos comuns entre as nações latinas.

Nesse sentido, o “Projeto Córdoba” vem aproximando alunos e professores, estabelecendo parcerias e abrindo um grande espaço para que, antes mesmo da assinatura do Tratado de Assunção 3, que oficializou o MERCOSUL, fossem estabelecidas discussão e reflexões a respeito de uma identidade e realidade latinoamericana através de um projeto educacional.

Ao longo desses 21 anos, várias conquistas se deram a partir desta iniciativa, como: (i) em termos curriculares, a introdução no Ensino Fundamental e Médio do CAp/UFSC da disciplina de Língua Espanhola; (ii) mais recentemente, em 2003, a criação da disciplina Estudos Latino-Americanos (ELA); e (iii) desde 2006, a inclusão do Projeto no IELA (Instituto de Estudos Latinos Americanos), com sede na UFSC.

Além disso, a experiência mais sistemática neste período tem sido o intercâmbio de estudantes que acontece anualmente. Foram 20 idas e vindas de meninos e meninas, a partir das quais, ao se aproximarem e se reconhecerem nas suas semelhanças, torna-se possível resgatar a ideia de uma identidade comum latino-americana. Os intercambistas permanecem por dois meses no país vizinho, vivenciando todos os tipos de experiências de morar num país diferente, de língua e cultura distintas, mas muito parecido nos seus processos de organização do trabalho e da vida. No período em questão, os estudantes são hospedados nas casas das famílias participantes do Projeto, convivendo diariamente com a sua rotina. Além disso, estudam no colégio como alunos regulares, participam das atividades dos adolescentes de suas faixas etárias, vivenciam as situações políticas, econômicas e socais internas em cada um dos dois países.

Outra questão bastante particular do Projeto e que devemos destacar é o desenvolvimento de trabalhos de pesquisa pelos intercambistas de ambas as instituições. Nos meses que antecedem a viagem, os alunos pensam em temas sobre o país vizinho nos quais gostariam de se aprofundar. Os temas devem ser pertinentes à proposta e ao ideal do “Projeto Córdoba”, e, a partir da ajuda de professores, os estudantes estruturam um projeto de pesquisa a ser executado durante os dois meses de intercâmbio. Geralmente na última semana de intercâmbio, os resultados das pesquisas são apresentados nas respectivas línguas “estrangeiras” em que foram desenvolvidas, tanto em Córdoba, como em Florianópolis.

Além da relevância em termos de trabalho de pesquisa, conforme parágrafo anterior, outro aspecto positivo que cabe ser mencionado, diz respeito à promoção da língua espanhola no micro contexto. O objetivo de possibilitar a reflexão a respeito de elementos comuns e integradores – não deixando de reconhecer e de identificar os aspectos plurinacionais e pluriculturais das sociedades envolvidas –, o “Projeto Córdoba” foi decisivo na implantação curricular do espanhol no CAp/UFSC em 1996.

Além disso, durante os meses de preparação dos alunos intercambistas, oferece-lhes gratuitamente um curso extra-curricular de língua espanhola, à luz da abordagem sociointeracional de aprendizagem de Língua Estrangeira (LE). Os encontros acontecem semanalmente com 2h/aula, tendo como principais objetivos: (i) promover, além da integração e fortalecimento do grupo de estudantes, a vivência de diferentes práticas sociais na língua espanhola, e (ii) (re)conhecer as características gerais da cultura argentina, especialmente da cidade de Córdoba. Para tanto, as aulas são desenvolvidas a partir das necessidades dos estudantes, contemplando a interação em LE durante o intercâmbio científico-cultural e os possíveis contextos de comunicação em que estarão inseridos durante os dois meses em Córdoba. A metodologia utilizada é diversificada, contando com debates temáticos, pesquisas, uso de diferentes gêneros textuais e materiais autênticos (reportagens, notícias, programas de rádio, documentários, filmes, tirinhas, músicas, encartes de mercados e lojas, etc.), exercícios de conversação, produções textuais, entre outros. Busca-se, desse modo, a vivência na língua e a integração de todos os participantes.

Finalmente, nos cabe destacar que mesmo com tantas conquistas, com mais de trezentos estudantes intercambistas, dezenas de professores envolvidos, centenas de famílias integradas e desenvolvimento de pelo menos quatrocentas pesquisas, acreditamos que ainda há muito a se construir neste processo coletivo e solidário em busca de integração e reconhecimento do Outro. Conviver com o diferente, aprender a respeitá-lo e valorizá-lo é a única possibilidade de se descobrir no Outro, de perceber nossas (des)semelhanças, de nos aproximarmos como hermanos.

5. Considerações finais
A apresentação dos projetos mencionados busca evidenciar a atuação e a parceria de três instituições federais de ensino no que concerne à valorização da língua espanhola e ao fomento do ensino-aprendizagem desse idioma no Sul do Brasil. A importância da língua espanhola para essa região decorre de inúmeros fatores, dentre os quais se destaca sua prática expressiva, devido, principalmente, ao setor turístico. Ademais, o ensino do espanhol como língua estrangeira forma parte de um conjunto de conhecimentos que permitem ao estudante brasileiro aproximar-se das múltiplas culturas de países hispânicos – muitos dos quais fronteiriços com o Brasil, favorecendo seu enriquecimento pessoal, além de sua qualificação profissional.

 

Libro de actas. 2 Congreso Internacional de Profesores de Lenguas Oficiales del MERCOSUR (CIPLOM)

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